Projeto articula intercâmbios entre Brasil, África, Ásia e América Latina, promovendo trocas de experiências e estratégias coletivas de proteção diante de violações de direitos humanos

Texto: Tatiana Lima, Ascom CBDDH; Fotos: Adi Spezia (Cimi)
Brasília — A articulação internacional entre defensoras e defensores de direitos humanos tem ganhado centralidade na agenda do Comitê Brasileiro de Defensoras e Defensores de Direitos Humanos (CBDDH), especialmente a partir do projeto de intercâmbios “Defensores do Sul Global”, que estrutura uma estratégia contínua de formação política, articulação internacional e incidência conjunta entre organizações de diferentes países.
A iniciativa conecta experiências do Brasil com contextos como Colômbia, Filipinas e países do continente africano, em parceria com organizações como: a Indigenous Peoples Movement for Self Determination and Liberation (IPMSDL), nas Filipinas; o Programa Somos Defensores, na Colômbia; e African Initiative of Women Human Rights Defenders (WHRD Initiative), presente em diversos países africanos como África do Sul e Gana, que atuam na proteção de direitos humanos e de territórios.
Esse movimento teve como marco recente a recepção de representantes das organizações parceiras durante o 8º Encontro Nacional do CBDDH, realizado entre 17 e 19 de março de 2026, em Brasília (DF), reunindo representantes do Brasil e de países parceiros nos intercâmbios. O encontro consolidou o intercâmbio como eixo estratégico da rede, fortalecendo a construção de respostas coletivas diante do avanço de violações de direitos humanos.

Eles também participaram de uma missão de direitos humanos aos territórios da comunidade indígenas de Coroca e São Miguel e a comunidade quilombola de Arapemã, em Santarém, no Pará, entre os dias 20 a 24 de março.
“Esse foi um processo muito importante para o Comitê Brasileiro de Defensoras e Defensores de Direitos Humanos. Embora o Comitê já tivesse relações anteriores com parceiros internacionais, o projeto Defensores do Sul Global consolidou vínculos de parceria, solidariedade e troca entre organizações que já dialogavam — e também abriu caminhos com outras com as quais ainda não havia relação”, afirma Alane Luzia, advogada popular da Terra de Direitos, representante do Grupo Animador do CBDDH.

Segundo ela, havia a compreensão de que essa troca entre defensoras e defensores do Sul Global tinha uma potência estratégica para o Comitê: “a presença de delegações da Colômbia, África do Sul e Filipinas reforça essa dimensão: os padrões de violação se repetem em diferentes contextos, articulados por cadeias econômicas e interesses transnacionais”.
E completa: “Também era fundamental conhecer as realidades sobre nossos países vizinhos ou territórios que enfrentam desafios semelhantes. Romper essa lógica é parte do que sustenta esse intercâmbio”.
Intercâmbio como estratégia política
O projeto de intercâmbio entre defensoras e defensores de direitos humanos do Sul Global integra um processo mais amplo impulsionado pelo CBDDH. A iniciativa tem como objetivo fortalecer a solidariedade internacional, promover a troca de experiências e construir respostas conjuntas diante de ameaças que ultrapassam fronteiras nacionais.
Para Eduardo Guimarães, da Associação Brasileira de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis, Transexuais e Intersexos (ABGLT), integrante do Comitê, o processo de intercâmbio evidenciou a dimensão global das violações:
“O intercâmbio solidificou a compreensão de que vivemos em um mundo em que muitas das forças que levam a violações de direitos humanos são transnacionais, como empresas e acordos econômicos entre estados. As estratégias de retirada de direitos têm sido replicadas em diferentes países, e os nossos opressores são basicamente os mesmos — uma elite aliada ao capital que avança sobre os territórios.”
Segundo ele, ao colocar em diálogo defensoras e defensores de diferentes países, torna-se evidente que, apesar das diferenças locais, há padrões comuns de violência e exclusão.
“Os nomes mudam, mas as lógicas e os sujeitos violadores são muito semelhantes. Ao mesmo tempo, aprendemos diferentes formas de resistência e fortalecemos estratégias coletivas de luta pela garantia de direitos.”
Experiências na América Latina e no Sudeste Asiático
Entre as ações do projeto, destacam-se os intercâmbios realizados na Colômbia e nas Filipinas, que aprofundaram a compreensão sobre os desafios enfrentados por comunidades e organizações em diferentes regiões do mundo.
Na América Latina, o diálogo com organizações colombianas foi apontado como estratégico para fortalecer a articulação regional.
“A relação com defensoras e defensores da Colômbia solidifica uma parceria fundamental. Em um mundo com lógicas transfronteiriças, não podemos ficar restritos ao Estado nacional. Precisamos construir alianças para enfrentar essas forças que pressionam os países e violam direitos”, afirma Guimarães.
Já no Sudeste Asiático, a experiência do intercâmbio nas Filipinas evidenciou tanto as semelhanças quanto às especificidades das violações.

Antonio Neto, pesquisador n programa de Proteção de Defensoras/es de Direitos Humanos e da Democracia, da Justiça Global, integrante do Comitê, que participou do intercâmbio na Ásia, o caráter formativo da experiência destacasse pela similaridades, mas também pelas diferenças:
“Foi um aprendizado coletivo muito importante para entender a realidade de uma região tão distante da nossa, mas com semelhanças muito fortes nas situações de violência que identificamos lá e também aqui no Brasil.”
Durante a visita, a delegação conheceu de perto conflitos territoriais envolvendo povos indígenas na região de Mindoro Ocidental, onde comunidades enfrentam pressões de empresas e vivem em situação de vulnerabilidade.
“É um conflito por terra em que comunidades indígenas enfrentam uma empresa de especulação imobiliária, o que gera uma situação de pobreza muito forte”, relata Neto. A missão também incluiu a participação em uma conferência do Sudeste Asiático sobre imperialismo climático, reunindo organizações de diversos países da região.
Violência, vigilância e padrões globais
Além das trocas políticas, o intercâmbio também expôs práticas de repressão e vigilância enfrentadas por defensoras e defensores em diferentes contextos.
“Vivemos momentos intensos de vigilância do Estado filipino, com polícia e exército cercando o acampamento e uso de drones. Foi uma experiência que nos assustou, mas também mostrou que esses processos acontecem em vários lugares do mundo”, afirma Neto.
Para Eduardo, esses elementos fazem parte de uma lógica global que combina racismo, desigualdade e interesses econômicos: “Populações fora do espectro privilegiado do poder são tratadas como menos humanas. O racismo, o classismo e as questões de gênero estão presentes nas estratégias de retirada de direitos em um mundo ainda marcado por uma lógica eurocêntrica.”
África: protagonismo de defensoras e fortalecimento de redes
Dentro do projeto, a etapa da África — especialmente na África do Sul e em Gana — foi bastante desafiadora, principalmente por ser a primeira. Todos os aspectos precisaram ser construídos, desde a organização até as estratégias de segurança devido às viagens e deslocamentos constantes. Mas essa primeira experiência consolidou a dimensão transcontinental da iniciativa e aprofundou o compromisso com agendas específicas, como o protagonismo de mulheres defensoras de direitos humanos (WHRDs).

Na África do Sul, a delegação pode acompanhar agendas importantes, como a da relatora especial da ONU para defensoras e defensores de direitos humanos, Mary Lawlor, além de diálogos com organizações em Durban e participação em um encontro de defensoras e defensores do sul do continente africano.
Já em Gana, a participação em uma conferência com representantes de mais de 28 países permitiu um panorama mais amplo das realidades do continente, ainda que sem aprofundamento em contextos específicos.
Segundo Alane, advogada popular da Terra de Direitos, integrante do Grupo Animador do Comitê, “em ambos os espaços, foi possível escutar, trocar experiências e compreender os desafios enfrentados, com destaque para a centralidade do protagonismo das mulheres defensoras africanas.”
“Também compartilhamos a realidade brasileira e latino-americana, apresentando experiências como o Programa de Proteção e a atuação do Comitê Brasileiro, com seus diferentes eixos de proteção. O intercâmbio foi fundamental para iniciar e fortalecer vínculos, especialmente com redes como a African Women Human Rights Defenders, ampliando o diálogo entre Brasil e África. Essa aproximação é estratégica, considerando os laços históricos e a importância da troca de conhecimentos para fortalecer a proteção de defensoras e defensores de direitos humanos”, explica Alane.
Assistente de coordenação e incidência política da Criola, Daniele Moraes, integrante da delegação brasileira que foi para África do Sul: “para além da possibilidade de observar de perto os impactos do racismo patriarcal cis heteronormativo e do fechamento dos espaços cívicos na atuação de defensoras no continente africano”, a experiência também revelou os desafios essas mulheres enfrentam.
Ela ressalta que, “a participação no intercâmbio promoveu a articulação e solidariedade internacional” permitindo pensar a construção coletiva de estratégias “de enfrentamento para uma atuação política mais segura centrada no Bem Viver”.
E conclui: “A iniciativa foi um grande acerto do Comitê, principalmente, ao olhar, de forma mais específica, para o sul global e os desafios comuns aos países.”
Construção de respostas coletivas
Diante desse cenário, o fortalecimento de redes internacionais aparece como um caminho estratégico. “Precisamos criar relações mais orgânicas e permanentes entre defensoras e defensores do Sul Global. Só assim conseguiremos responder de forma conjunta a essas ameaças que atravessam fronteiras”, avalia Eduardo.
Segundo ele, o intercâmbio não apenas amplia diagnósticos, mas também aponta caminhos: “A luta pela garantia dos direitos no Sul Global é hoje uma forma fundamental de existência frente ao avanço global contra direitos.”
Delegação Internacional de intercambista das Filipinas, Colômbia e África do Sul e Zimbábue, apresentou contexto da luta pela proteção de defensoras e defensores de direitos humanos em seus países.
No Encontro Nacional do CBDDH, realizado entre os dias 17 e 19 de março, os participantes das delegações brasileiras da África do Sul, Colômbia e Ásia se reencontraram e dividiram suas impressões com defensoras e defensores das 47 organizações que compõem o Comitê. Além disso, a delegação internacional de parceiros pode conhecer e trocar experiências juntos.
Composto por 47 organizações e movimentos sociais, o CBDDH atua na proteção de defensoras e defensores de direitos humanos em todo o Brasil e na incidência sobre políticas públicas, como o Programa de Proteção aos Defensores de Direitos Humanos (PPDDH).
A aposta na internacionalização da luta, por meio dos intercâmbios e da articulação com organizações de outros países, representa um avanço estratégico da rede, que busca enfrentar problemas estruturais a partir de uma perspectiva global, sem perder o enraizamento nos territórios.
Ao consolidar esse processo, o Comitê reafirma que a defesa dos direitos humanos no Brasil está diretamente conectada às lutas travadas em outros países do Sul Global — e que a construção de respostas coletivas é central para enfrentar a escalada de violações e fortalecer a democracia.

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