Organizadoras exigem fundo nacional, reconhecimento de dívida pelo Estado e paridade racial

Nem a chuva persistente que caía sobre Brasília impediu que 2ª Marcha Nacional das Mulheres Negras por Reparação e Bem-Viver, acontecesse na última terça-feira, 25 de novembro. Uma enorme mulher negra inflável, de 14 metros, com uma faixa presidencial onde se lê “Mulheres Negras Decidem” foi o ponto de partida de centenas de caravanas que integraram a marcha rumo à Esplanada dos Ministérios.
Um tapete, com incontáveis fotos de vítimas da violência em favelas do Rio de Janeiro nos últimos anos, ocupou metros do chão da concentração da marcha. Cada rosto uma história, um caso de violência. As vítimas eram, em sua maioria, jovens negros, pobres e moradores de periferias.
Realizada no marco de 10 anos da primeira edição, a mobilização reivindicou reparação e Bem Viver para a população negra brasileira. A Criola, organização de mulheres negras que é uma das fomentadoras do ato desde 2015, esteve presente, trazendo em sua comitiva 48 mulheres parceiras.
“A segunda Marcha tem um aspecto político muito importante. Ela vem para marcar a nossa presença como sujeito político nesse cenário”, pontua Lúcia Xavier, Coordenadora Geral da organização.

A 2ª Marcha Nacional das Mulheres Negras por Reparação e Bem-Viver aconteceu no Dia Internacional pela Eliminação da Violência contra a Mulher, data reconhecida pela Organização das Nações Unidas (ONU). A denúncia e reivindicação pelo enfrentamento a violência de gênero foi um dos pontos centrais da marcha. A Marcha se organiza em torno de um projeto político de sociedade: o bem viver. Inspirado em concepções latino-americanas e afro-diaspóricas, o conceito defende uma sociedade comunitária, que prioriza cuidado, dignidade, respeito, soberania e políticas coletivas que garantam direitos básicos.

O trajeto de 2,5km foi acompanhado de falas políticas, gritos de resistência e da canção “Mete marcha, negona, rumo ao infinito”. Nas ruas, mulheres, jovens, idosas, cadeirantes e crianças carregavam cartazes com mensagens como “Povo negro vivo e livre”, “Reparação já” e “Todas nós pelo fim do feminicídio”. Centenas de mulheres quilombolas se manifestaram na marcha.
Guardiãs do território e da biodiversidade, elas foram à Brasília para reivindicar direitos, denunciar desigualdades e celebrar a força coletiva da ancestralidade negra, organizadas pela Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas (CONAQ), que ecoaram uma pauta urgente e estruturante: a reparação histórica e a garantia de uma vida plena.

Mais de 300 mil mulheres negras participaram da 2ª Marcha, dez anos depois da primeira Marcha Nacional das Mulheres Negras em Brasília, em 2015, que reuniu dezenas de milhares de mulheres e deixou de legado para o país a Carta das Mulheres Negras como síntese de um projeto político de justiça social, ambiental e racial, a 2ª Marcha Nacional marca mais um momento central na defesa da vida das mulheres negras e do povo negro, recolocando no centro do debate nacional a reparação histórica e a construção coletiva do bem viver. A Justiça Global participou da Marcha.
“É uma honra marchar em afirmação e compromisso político à história de luta das mulheres negras. É esse movimento que tensiona nossas práticas, amplia nossa leitura, conecta as lutas locais e globais, e garante que a defesa dos direitos humanos seja, de fato, antirracista, comprometida com a igualdade de gênero e contra qualquer forma de discriminação”, afirma a JG
A Conaq, Criola e Justiça Global são organizações membro do Comitê Brasileiro de Defensoras e Defensores de Direitos Humanos. O CBDDH apoia a 2ª Marcha Nacional das Mulheres Negras por Reparação e Bem-Viver e manifesto da marcha que: reconhece a pluralidade feminina e exige a construção de uma agenda orientada à inclusão das mulheres nos espaços de tomada de decisão, elencando 11 proposições para a reparação à população negra. O texto ainda destaca que, sem reparação, não há possibilidade de democracia sólida.
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Redação Ascom CBDDH, com informações da Agência Brasil, Criola, Conaq e Justiça Global