Nota de Posicionamento
Em Defesa Da Memória De Marielle E Anderson E Contra A Revitimização Pela Mídia
O Comitê Brasileiro de Defensoras e Defensores de Direitos Humanos (CBDDH), articulação composta por 47 organizações e movimentos sociais da sociedade civil brasileira, vem a público manifestar sua irrestrita e fraterna solidariedade às famílias de Marielle Franco e Anderson Gomes diante de mais um episódio de desrespeito à sua dor com a veiculação da matéria do programa Doc Investigação, exibida pela Record, que concedeu espaço em horário nobre ao assassino confesso Ronnie Lessa, que cumpre pena pelos dois homicídios.
Reafirmar a memória e a dignidade das vítimas é uma exigência ética e política. Marielle Franco, defensora dos Direitos Humanos e vereadora que dedicou sua trajetória ao combate às desigualdades, à denúncia das arbitrariedades do Estado e à defesa das populações vulnerabilizadas. Anderson perdeu a vida como companheiro de jornada de Marielle.
Matérias dessa natureza não oferecem informações relevantes para a sociedade, tampouco contribuem para a compreensão ou para o enfrentamento da criminalidade no país. Ao contrário, produções desse tipo promovem a revitimização das famílias e sobreviventes, reabrindo feridas profundas e convertendo a dor humana em mero conteúdo para audiência.
Este cenário torna-se ainda mais grave quando consideramos que o Brasil segue enfrentando alarmantes índices de violência política, que atingem de forma desproporcional mulheres, pessoas negras e defensoras de direitos humanos.
A veiculação irresponsável desse tipo de conteúdo reveste-se de extrema periculosidade ao ocorrer em pleno ano eleitoral e no momento em que se completam dez anos da histórica eleição de Marielle Franco, em 2016. Conceder visibilidade e palco à narrativa do agressor em um ano tão decisivo fortalece a normalização da intimidação política e atenta contra o exercício democrático.
A violência política, racista e de gênero que tirou as vidas de Marielle e Anderson permanece como uma marca dolorosa na história da nossa democracia e exige dos meios de comunicação responsabilidade social e respeito humano. O CBDDH repudia a banalização do trauma e conclama a sociedade a manter-se mobilizada pela memória, pela justiça e pelo legado inestimável daqueles que dedicaram a vida à defesa dos Direitos Humanos.
Marielle Franco e Anderson Gomes, presentes!
Brasília, 2 de setembro de 2026.
Comitê Brasileiro de Defensoras e Defensores de Direitos Humanos (CBDDH)

