Brasília — O Comitê Brasileiro de Defesa dos Direitos Humanos (CBDDH), articulação nacional composta por 47 organizações e movimentos sociais, manifesta sua solidariedade à antropóloga Sheila Brasileiro diante dos acontecimentos ocorridos em 14 de maio de 2026, quando a pesquisadora foi alvo de medida de busca e apreensão relacionada ao exercício de sua atuação profissional.
Em um contexto marcado pelo agravamento dos conflitos fundiários, pela violência contra povos indígenas e pela ampliação de práticas de intimidação contra defensoras e defensores de direitos humanos, preocupa profundamente a criminalização de lideranças indígenas, pesquisadores, profissionais da antropologia, indigenistas e demais pessoas comprometidas com a garantia dos direitos constitucionais dos povos originários.
O trabalho antropológico possui papel fundamental na mediação intercultural entre o Estado brasileiro e os povos indígenas, contribuindo diretamente para os processos de reconhecimento territorial, proteção das identidades coletivas, valorização das culturas tradicionais e promoção dos direitos humanos. A atuação técnica e científica de antropólogos e antropólogas é indispensável para assegurar políticas públicas, mecanismos de justiça e instrumentos de reparação histórica voltados às comunidades indígenas.
“As chamadas retomadas territoriais precisam ser compreendidas a partir do histórico de violência, expulsão e omissão do Estado brasileiro em relação aos povos indígenas. Trata-se de processos de reafirmação étnica e territorial que não podem ser tratados sob a lógica da criminalização, mas sim à luz dos princípios constitucionais, do diálogo intercultural e da proteção dos direitos coletivos dos povos originários”, destaca a Associação Brasileira de Antropologia (ABA).
O CBDDH manifesta preocupação diante da escalada de ataques contra profissionais que atuam na defesa dos direitos indígenas e recorda que episódios semelhantes já foram denunciados em diferentes momentos da vida democrática brasileira. Como destacou nota da Associação Brasileira de Antropologia (ABA), ao rememorar os ataques promovidos durante a chamada Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Funai 2, “o objetivo é desqualificar as condutas dos que participam de processos de identificação de comunidades indígenas e quilombolas e de suas terras de ocupação tradicional, querendo equiparar tal luta à prática de crimes, e os que a lutam, a criminosos”.
O Comitê alerta a sociedade brasileira para o avanço de práticas de intimidação, perseguição e criminalização contra aqueles e aquelas que atuam na defesa dos povos indígenas e dos direitos humanos no país. Reafirmamos nosso compromisso com os povos originários, com a demarcação dos territórios indígenas e com toda a sociedade civil organizada que dedica seu trabalho à proteção da vida, da democracia e da justiça social.
É urgente que o Estado brasileiro e as autoridades competentes interrompam a escalada de ataques dirigidos a profissionais, ativistas, pesquisadores, lideranças populares, militares comprometidos com a legalidade democrática e defensoras e defensores de direitos humanos, sob pena de aprofundar ainda mais o cenário de violência e ameaça às garantias constitucionais no Brasil.
Reiteramos nossa solidariedade à antropóloga Sheila Brasileiro e a todas as defensoras e defensores de direitos humanos que atuam junto aos povos indígenas. O fortalecimento da democracia exige a proteção da produção científica, da liberdade de atuação profissional e do direito dos povos originários à terra, à memória, à identidade e à autodeterminação.
Comitê Brasileiro de Defesa dos Direitos Humanos (CBDDH)
21 de maio de 2026

