Opinião

Deley de Acari

  • Date : 4 de julho de 2017

Cuidações amigas

 

À Carol Maíra

Cuidando d’ocê

Eu cuido d’eu!

Oce deix’eu

Cuida d’ocê

É seu jeito

De cuida d’eu!

VÊ SE FICA VIVO,TÁ?

Essa frase-tema é na verdade o título de um conto já escrito, mas ainda não publicado. Não vou escrever o conto aqui. Apenas vou dizer como ele surgiu. Na verdade não é uma criação minha. Me apropriei dela depois que a ouvi da boca de uma menina negra de 15 anos, dita às minhas vistas e aos meus ouvidos, ao seu namorado, pelo menos 10 anos mais velho que ela, que passou perto do grupo onde estávamos juntos, armado e fazendo a segurança de um chefe do tráfico.

Dita num tom imperativo e fortemente emotivo, a frase soou aos meus ouvidos mais do que a preocupação de uma namorada com a vida de seu amado, em evidente risco de vida permanente. Soou maternal. Irmã mais velha de quatro irmãos, filhos de uma mãe que se tornou mãe mais ou menos na idade que ela tem hoje, essa garota teve cedo que largar as bonecas ou alternar os cuidados com elas com os cuidados para-maternais com os irmãos e irmãs mais novas, já que a mãe saía para o trabalho às 5 da manhã e só voltava lá pelas 10 da noite.

Vale lembrar que esse instinto maternal, de ser “mãe” sem que se tenha parido os “filhos”, se desenvolve também nos meninos mais velhos, que têm que tomar conta dos irmãos mais novos pela ausência da mãe. A diferença é que, nos meninos, essa “maternalidade” precoce some, desaparece com o tempo, sequer se transforma numa “paternalidade”, enquanto nas meninas permanece e é ampliada, por exemplo, às pessoas mais velhas, não só de sua família, mas do seu circulo de amizades, relacionamentos, inclusive aos próprios pais, tios, avós…

Nascida e criada na favela, essa menina de 15 anos cresceu vendo os homens de seu convívio comunitário morrerem cedo, mais cedo que as mulheres como ela. Teve um tio morto ainda adolescente quando ela era ainda um bebê, mas não tão bebê que não guarde na memória difusa e embaçada a imagem do velório e de sua mãe, suas tias e sua vó chorando em torno do caixão. Embora seu tio tenha sido morto pela policia e ela tenha visto e sentido a morte de muitos amigos de infância que entraram para o trafico e também morreram cedo de forma violenta, e ela tenha dito essa frase temendo que o mesmo aconteça a seu namorado, ela representa uma ideia fixa, repetida como um mantra, apenas em pensamento ou verbalizada, como uma micro oração, por toda e qualquer mulher favelada como ela, quando os homens da família saem pra trabalhar, pra ir pra escola, ou simplesmente se divertir na pelada, ou no baile funk da favela.

Seu cuidado com o jovem que ama não é um cuidado isolado. É a expressão de um cuidado coletivo que está no coração de toda mulher favelada diante do terrorismo de estado que paira de forma permanente sobre os territórios de praticamente todas as 1060 favelas existentes hoje no Rio.

Terrorismo imposto por um Estado Civil-militar-judicial-penal que ameaça permanentemente invadir a favela atirando a esmo, matando e ferindo moradores comuns, ditos inocentes. Ferindo e depois executando sumariamente qualquer jovem que seus agentes identifiquem como suspeito de ser bandido ou que seja realmente. Podem passar dias, semanas, talvez um mês sem que haja uma operação policial na favela, mas coração de mãe não se engana e esse coração materno, seja físico ou apenas simbolicamente materno, como o daquela jovem, sofre e se atormenta permanentemente e fica de vigília vinte quatro horas por dia, mesmo quando ela dorme, até acordar assustada e trêmula com o estalido de um simples bater de porta ou queda de um copo de plástico na cozinha.

Aos poucos, dia a dia, esse terror permanente, esse medo invisível, mas pesado em seu coração, vai fazendo mal a ela e ao seu cuidado com os homens de sua família, faz ela pôr em segundo plano o cuidado com ela mesma. E só não lhe faz mais mal ainda porque, pra ela, cuidar contra o terrorismo de estado, seja de um homem de sua família, namorado ou amigo, é um jeito dela cuidar de si mesma. Cuidando deles ela cuida de si mesma, assim se fazem as cuidações amigas das mulheres negras e pobres das favelas e periferias, escudos de defesa materna real ou simbólica contra o terrorismo de estado que vem promovendo o extermínio de milhões de jovens, na maioria negros das favelas e periferias da cidade e da sua zona metropolitana.

* Deley de Acari é poeta e integrante do coletivo Fala Acari.
O Blog da Defensora e do Defensor é um espaço plural que pretende dar voz a mulheres e homens que dedicam suas vidas à luta por direitos humanos. Os textos aqui publicados são de responsabilidade de suas autoras e autores e não refletem necessariamente o posicionamento do Comitê Brasileiro de Defensoras e Defensores de Direitos Humanos.

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